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Texto publicado em 28/08/2010* - 16:53, sábado.por Alexandre Kury Port
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 20 meses!
O Código Secreto dos Anjos



Quando olhei o sol entrando pela janela daquela manhã lembrei-me da ironia do tempo, como podia um sol tão quente num dia de inverno tão rigoroso? O frio entrava pela janela entreaberta congelando não só os ambientes, mas os olhares; entrei em meu consultório, ao verificar a agenda, haviam pacientes em todos os horários, seria mais um dia de pura psicologia. Minha formação havia feito de mim uma pessoa de poucas palavras e relacionamentos, simplesmente minha vida era meu trabalho, minha casa e um bichano no qual eu havia dado o nome de Benjamim, que me acompanhava nas noites de solidão.

Seria só mais um dia de trabalho, não fosse a paciente que entrara em minha sala às 20h20min e que, por alguma razão, fizera meu coração acelerar, jamais um olhar e expressão haviam me causado tal reação, não era paixão nem química, mas um arrepio que se consolidava em meu corpo e, apesar dos anos de profissão, foi impossível não gaguejar nas primeiras palavras: a frieza no olhar e ao mesmo tempo a docilidade que transmitia, haviam me dominado. Seu nome era Carolina, com olhos azuis, cabelos loiros, agiu de uma maneira como se conhecesse minha vida, falou de minhas experiências de religião e sem delongas, chamando-me pelo nome, disse:

- Dr. Henrique, não temos mais tempo, precisamos de você. Nós sabemos o que você conhece e precisamos de sua voz.

Nos instantes que se seguiram ela simplesmente se levantou e se retirou do meu consultório, me deixando com inúmeros questionamentos, quem precisaria de mim?! Por que precisaria de mim?! E principalmente por que tive tais reações, por que Carolina havia agido como se me conhecesse.

Após aquele choque com o coração acelerado e borboletas em meu estômago, fechei meu consultório e segui para casa, onde Benjamim me esperava ansiosamente para me amar por tempo indefinido até o próximo prato de comida. Ao tomar banho e sentar em frente a minha lareira, para aquecer-me, fechei os olhos e os questionamentos começaram a vir, naquele momento eu precisava de ajuda e sabia a quem recorrer.

Luci era uma das meninas mais doces que eu havia conhecido na minha vida, tinha os cabelos morenos, lindos, compridos, os olhos castanhos que quando o sol batia pareciam pedras preciosas, seu sorriso iluminava o mais escuro dos dias, mas o que me fez aproximar dela era seu jeito desastrado, distraído e engraçado de ser; sempre ficava olhando pela janela nas aulas de psicologia e às vezes via ela falando sozinha. Quando me aproximei de Luci descobri um lado assustador, o qual eu não acreditava, Luci era espiritualista desde pequena e quando completara dezoito anos fora iniciada em uma Ordem de Ciganos, conhecera mistérios de nossa existência e via coisas as quais nós com nossos véus não víamos; se todos conhecessem Luci como eu conhecia, a chamariam de louca. Luci sempre me falara dos mistérios e eu não dava ouvidos, debochava e às vezes fingia não ouvir, e naquele momento a única pessoa que me ouviria e me daria conselhos seria ela.

Liguei pra Luci e a chamei em minha casa ainda naquela noite, que assim fez, ainda me lembro que o céu se iluminava de estrelas e eu sentei-me com Luci em frente a lareira onde Benjamim dormia, e por aquela madrugada contei o que havia acontecido, Luci me escutara e tentara encontrar explicações junto comigo.

Eu e Luci decidimos então irmos, na manhã seguinte, à Biblioteca Pública e investigar o nome de Carolina, ao chegarmos a escadaria os leões de mármore se erguiam a nossa frente. Entramos e percorremos aqueles corredores imensos até chegarmos aos arquivos, e então quando chegamos às velhas máquinas e começamos a investigar, lá estava a imagem de Carolina, exatamente como estivera em meu consultório, algo normal, não fosse um jornal datado de 54 anos atrás. Eu fiquei sem reação e Luci desesperadamente tentava me acalmar, como poderia alguém ter congelado com o tempo e mantido a mesma fisionomia; a matéria dizia que aquela jovem comprara a casa da Torre, uma famosa casa afastada na cidade, e lá instituiria uma escola.

Ao procurarmos mais, encontramos matérias mais remotas que contavam que a escola havia pego fogo ao completar 10 anos, pois certas pessoas julgavam que ali se praticava bruxaria e desde então Carolina não fora mais vista na cidade. Luci não me deixou pensar e logo me pegou pela mão e fomos direto à casa da torre.

A casa da torre ficava em uma grande floresta em meio à cidade, abandonada devido as lendas que se criaram após o incêndio. Luci insistiu e pulamos a cerca, aquele lugar me provocava arrepios, seguimos o caminho de pedras tomado pelo limo, a medida que caminhávamos eu tinha a impressão que alguém nos seguia em meio a vegetação, caminhamos alguns minutos e de repente lá estava aquela estrutura em pedra abandonada com sinais do incêndio. Luci não teve dúvida, foi entrando na casa, a impressão que se tinha era que o fogo havia sido apagado, porta-retratos caídos nas paredes, mesas viradas, algo assombroso, enquanto explorávamos ouvimos um estrondo vindo do piso superior, nos olhamos e Luci me fez sinal para subirmos. Pé por pé subimos onde segundo o jornal ficavam as salas de aula; carteiras abandonas, quadros castigados do fogo, e símbolos religiosos nas paredes. Eu não queria falar, mas aquilo me parecia mesmo uma escola de bruxaria, restava saber o que tinha eu a ver com isso...

Novamente um segundo estrondo veio da escada que dava na torre, e ao subirmos lá estava um baú intacto, como se fora colocado ali instantes antes, no momento que o abri, achei fotos, roupas e um mapa, que mostrava um local secreto dentro da catedral de nossa cidade, e junto a esse bilhete uma foto de Carolina, com um senhor, era meu pai, ao lado deles havia uma criança, que eu realmente temia que fosse eu. Luci sem pestanejar no caminho para a catedral ligava para Baltazar, Cigano líder de sua seita e contara toda história, Baltazar nos encontraria na catedral e dizia ter o que falar sobre a casa da torre.

Ao estacionarmos meu carro em frente a igreja lá estava ele, de bandana na cabeça e camisa de seda, sem conhecê-lo sabia que era Baltazar. Entramos rápido na igreja, pois havia recebido uma ligação de minha secretária, Carolina marcara horário no final daquele dia, o relógio marcava 11h37min, e eu tinha até as 18h15min, para saber o que me esperava em meu consultório. Baltazar me tratara como filho e falara que a ordem dos ciganos sempre respeitara Carolina, porém ninguém sabia ao certo quem era ou o que fazia. Baltazar, no entanto, descartava a teoria de Bruxaria.

- Jovem Henrique, bruxos todos somos, felizes os que sabem disso.

Aquele homem poderoso me dera segurança e então eu e Luci decidimos acessar os locais da igreja a qual aquele mapa mostrava, Baltazar se despediu e nós seguimos para um local que apontava o confessionário, lá estava o alçapão que dava acesso a uma escadaria ao sub-solo da catedral. Era escuro e úmido, ao seguirmos pelo corredor apertado de rochas encontramos uma sala cheia de pergaminhos e um livro cadeado antigo e grande em cima de um pedestal, e em sua grossa capa as iniciais de meu sobrenome SP, de maneira alguma consegui abrir o livro, então resolvemos levá-lo junto ao meu consultório, onde eu me prepararia para atender Carolina.

Luci julgara que dali para frente eu deveria ficar sozinho, e que depois que tudo terminasse deveria ir ao seu encontro, entrei no consultório e corri para minha sala com aquele livro, já não tinha mais tempo, e quando vi, Carolina adentrava a porta.

- Encontrou o livro então Dr.?!
- O quê e quem você é?! Onde estão as chaves deste cadeado?!
- Estão dentro de você Henrique.

- Como assim?!
- Coloque sua mão sobre o cadeado e feche os olhos.

Naquele momento não sei o que aconteceu, adormeci como se tivesse desmaiado e ao acordar me deparei com o livro aberto e o seguinte título: “Código Secreto dos Anjos”. Não vi sinais de Carolina; ao perguntar para minha secretária por ela, dissera que nos últimos dois dias não havia tido nenhuma paciente com esse nome. Luci ao ouvir isso se arrepiou mas não questionou e pediu que eu não questionasse também. Estudei o conteúdo do livro e constatei que eram ensinamentos sobre o universo e seus mistérios, achei um bilhete dentro, meu pai fora professor da escola na casa da torre, e escrevera aquele livro junto com Carolina, e eu quando criança estava junto, a foto retratava um dia antes do incêndio e o dia que o livro fora terminado. Eu entendi que minha missão era de forma sutil levar aquela mensagem, de que não estamos sozinhos, e que existem mais coisas do que podemos compreender; certas palavras não são ditas para se compreender em algumas horas ou dias, mais sim durante uma vida inteira.

Hoje conto essa história, como uma das minhas últimas missões, tenho 60 anos, casei com Luci, a menina maluca, que sempre estava lá com os braços abertos, temos filhos lindos e desde que recebi o livro tenho propagado sua mensagem.

Todo ser humano tem dentro de si um pequeno mundo, somos tomados pela rotina e muitas vezes deixamos de olhar para o nosso mundo, a questão é que temos que observar que para termos esse pequeno mundo dentro de nós, temos um grande universo, somos uma pequena parte importante em um equilíbrio, se até uma simples xícara de café tem o equilíbrio certo entre água e café quem dirá o equilíbrio da nossa existência. Hoje posso dizer que acredito em anjos, depois de Carolina ter aparecido na minha vida, não estamos sozinhos em nenhum momento. Devemos desvendar os mistérios, subir nossa torre, achar o baú e então finalmente encontrar nosso próprio livro, valorizando quem sempre e para sempre estará lá de braços abertos para nós.

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