| Texto publicado em 08/09/2010* - 00:00, quarta-feira. | por Marília Daros | | *Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 20 meses! |  Colonização: As etnias formativas de Gramado “O VERDADEIRO AMOR PELA SUA TERRA NÃO É O SIMPLES AMOR AO SOLO,
MAS O RESPEITO ÀS GERAÇÕES QUE O FERTILIZARAM.” ( de um filósofo francês ).
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| | Desenho sobre tecido, Marilia Daros, registrando o início do arranchamento luso-açoriano que formaria Gramado. |
A história nos irmana. Sempre.
Em qualquer tempo ou lugar. Esta irmandade promove a INTEGRAÇÃO DA MEMÓRIA que acontece na busca de uma relação palpável entre o tempo, o caminho e o ser humano.
Alguns somam para que isto aconteça, e resgatam as memórias e as fantasias dos outros. Outros, esquecem da sua e de todas as histórias.
O Brasil é um país de imigrantes. Povos das mais diversas raças aqui chegaram e adotaram conscientemente, a nova pátria que se enriqueceu com novos valores culturais e humanos.
O Rio Grande do Sul sentiu esta influência benéfica que iniciou com os açorianos, depois com os alemães e italianos, seguindo-se outras nacionalidades. As suas vidas sociais, econômicas e culturais, imprimiram no nosso Estado, uma fisionomia própria, construída com fé, persistência e audácia. O feito destes pioneiros é motivo de nosso orgulho. Recebendo seus lotes de graça ou por compra, os imigrantes e seus descendentes se tornaram seres comprometidos com a terra, derrubando a mata e construindo suas vidas e famílias. Depois, foram agricultores, tentando reproduzir aqui os produtos de suas terras de origem. As colheitas mais fartas aconteceram quando plantaram os produtos nativos desta terra. E nosso Rio Grande se transformou num celeiro.
Todos os caminhos e povoamentos surgidos na serra gaúcha, sem dúvida, têm uma característica comum: estabelecer um mercado intermediário entre Porto Alegre, São Leopoldo, Santo Antônio da Patrulha, os Campos de Cima da Serra e os caminhos que levavam ao norte, para Sorocaba, no Estado de São Paulo, e para um comércio maior, especialmente, o comércio muar.
Com o incentivo ao colono de origem luso-açoriana, miscigenado, para ir às partes altas da Serra do Nordeste do Estado, aconteceu o povoamento das encostas, realizada por esse homem novo, ampliando as possibilidades de novos caminhos para os tropeiros, mascates e aventureiros. Cortando o mato por trilhas sem fim. Acampavam junto a arroios ou vertentes, descarregando a carga para que as mulas passassem a noite pastando. Armavam barracas para o acampamento ou dormuam sob as árvores, ao relento. De manhã, a viagem prosseguia. Foram por esses caminhos que chegaram ao nosso torrão gramadense, lentamente, na expectativa de um local que deveria ser especial.
A natureza protegia esta rocha solitária que hoje é Gramado, e TRISTÃO JOSÉ FRANCISCO DE OLIVEIRA, um biriva, foi quem deu formação e conformação a este local especial, ainda jovem e solteiro. Na cata da casca da Gramamunha, árvore rica em tanino e com lenho comercial, fez sua aventura nesse costeiro íngreme, surgindo então o SECADOR DO COSTEIRO, onde Tristão, sacrificando parte do mato nativo, fez a rapina e secou o lenho e a casca. Com ele, um amigo, JOSÉ MANUEL CORREA, o JUCA LAGEANO, como era chamado, que mantinha uma invernada iniciada com algum gado trazido de Lages, Santa Catarina, auxiliado por um bom número de filhos. E ainda o que ia conseguindo na passagem dos tropeiros. Tristão se tornou um TROPEIRO DE CASCAS. E no local aberto no COSTEIRO, começou a surgir viçoso, um grande CAMPESTRE, com vertentes brotando da rocha, com quedas d’água, erva mate e um suculento gramado natural: UM CAMPESTRE GRAMADO, ou, O CAMPESTRE DO GRAMADO. Acolhedor e repousante. E neste local, os tropeiros encontraram um pouso que foi de boca em boca sendo referência, ao ponto de se tornar um local marcado para repouso nos caminhos tropeiros.
Como pioneiro colonizador, TRISTÃO DE OLIVEIRA foi tropeiro de seres humanos, na busca de novos moradores para a região e na recepção dos mascates e birivas passantes, garantindo aqui, o “RANCHO DE TÁBOAS”, maior marca de nosso primeiro pouso.
Gramado encontrava-se na rota direta das tropeadas e andanças de nacionais que fizeram os caminhos iniciais em nosso estado. Se fez pouso de tropeiros como era o destino que quase todos os arranchamentos de então, feitos por lusos. Uma cidade que sentiu na carne a Revolução Federalista de 1893. Que precisou de muita fibra para se manter preservada, décadas depois, com a Revolução de 1923.
O primeiro tropeiro deixou a trilha aberta, o rodeio iniciado: os que se seguiram, só tiveram que se render às evidências. A escolha era perfeita e o andarilho viu que ali era lugar de parar, apear, reativar o organismo, descansar, saborear a natureza e dar “uma esticada nas pernas”... porque, afinal, ninguém é de ferro !
ALEMÃES E ITALIANOS
Na somatória formada com os pioneiros telúricos de origem luso-açoriana; os italianos que rasgavam a terra com suas mãos produtivas e trabalhadoras e mais a capacidade alemã de ver muito além do tempo, foi que GRAMADO passou a ser um POUSO DE TURISMO. E foi assim que, de tropeiro em tropeiro, de mascate em mascate, de carroça em carroça, de mula em mula, de homem em homem, que se formou a vila e a cidade. E o nosso tropeiro em sua jornada, antevia um lugar de repouso e de comércio: não de apenas, passagem. Um grande rodeio que possibilitou o início do turismo serrano.
Seguindo o raciocínio lógico de outras cidades de formação paralela, se pode afirmar que o "filho homem, depois de adulto, ia em busca de novas terras para se estabelecer e incorporava então novos espaços físicos". É o que deve ter acontecido, certamente com a Linha São Roque, a Linha Nova, a Linha Bonita, Pedras Brancas (italianos) e Renânia, Marcondes, Tapera e Araripe (alemães), principalmente divididas sobre áreas de antigos proprietários nacionais e que não haviam renovado seus direitos sobre as terras antigamente registradas. Em alguns anos já teriam formado estes pequenos núcleos derivados de Caxias do Sul, São Marcos, S. Sebastião do Caí, São Leopoldo, Nova Petrópolis e Taquara.
"A cada núcleo colonial desses, denominavam-se de picadas, linhas ou, comunidades. Uma comunidade, com 100 a 130 famílias, com escola, igreja, clube e associações."
Surgiram os mutirões de trabalho comunitário, regularmente convocados, para serviços de reformas, limpezas, conservação de estradas, construções e ainda, para as festas populares e religiosas. A "venda" ou casa comercial fez o elo entre o colono e o mundo, através dos tropeiros, mascates e viajantes. Os lotes foram unidades produtivas e a mulher a companheira para os mais variados serviços. A dança foi um dos passatempos preferidos e para se ter uma idéia, em 1930, Taquara do Mundo Novo (onde Gramado se insere) já possuía 60 sociedades recreativas.
Assim foram acontecendo as incursões dos nossos colonizadores entre ligações por caminhos feitos a lombo de mulas, no inicio em picadas, e depois, no tráfego de carretas, ampliando os caminhos. Gramado fugiu à regra da colonização em lotes, na cidade propriamente dita, por não ter sido demarcada desta forma padrão, quando de sua posse, no final do século passado.
Depois de 100 anos, olhamos a cidade e não temos a mínima idéia de como ela era dividida, por seus antigos proprietários.
Poucas são as linhas demarcatórias em ruas e divisas, que ainda hoje são visíveis em mapas que se preservaram. A Av. Borges de Medeiros era o caminho mais trilhado pelos tropeiros e pode ser considerado o “caminho de todos”.
Em 1913, quando o 5o Distrito de Taquara do Mundo Novo foi transferido em sua sede, de Linha Nova para Gramado, poucas eram as ruas que marcavam a atual conformação. Os lotes eram pequenos, quadras, tendo um maior número de proprietários, divididos entre:
Portugueses, como Oliveira, Pereira, Correia, Narciso, Cardoso, Silva, Santos...; Italianos, como Benetti, Nicoletti, Brezola, Parmegiani, Bezzi, Bordin, Belotto...; Alemães como Sperb, Fisch, Bier, Reck, Arend, Petry... só para alinhavar alguns exemplos.
Aqueles alemães que ultrapassaram as divisas das Terras da Integração, desde a antiga Feitoria da Linha Cânhamo ( Colônia de São Leopoldo ) e se aventuraram serra acima na busca de novas terras. Aqueles que ultrapassaram o Rio Caí ( ou Santa Cruz ) e que formaram a Linha Araripe, Marcondes, Tapera, Ávila. Que saíram da Quadra da Renânia, formando a Serra Grande, o Caraá ( Carahá ), o Quilombo, a Linha 28 e até o Caracol, Lajeana, Canela e Canastra. Outros que subiram da Colônia de Taquara do Mundo Novo, de TRISTÃO MONTEIRO, e vieram , pelo sul, plantando e colhendo trabalho e alimentos. Subindo até onde hoje está o núcleo Gramado, deixando rastros no Moreira, Moleque. Certamente, são os pioneiros.
Nossa imigração atualmente, está dentro de um percentual bastante significativo, tendo 25% de italianos e 25% de alemães, se contarmos apenas os sobrenomes finais. Certamente, devemos considerar que é rara hoje a família que não tenha algum tipo de cruzamento com outra etnia, especialmente, a luso-açoriana. Portanto, falar em italianos, é também falar de alemães e nacionais ( estes com o percentual de 45% e outra etnias de 5% ).
Gramado vive hoje de "chegadas"! Seja bem-vindo a Gramado! Isto é COLONIZAR!
Você é o turista, você escolhe!
E você que já está aqui lembre: receber bem é uma forma de dizer que o passado valeu cada momento. "Educar para o turismo é saber realmente o valor de”chegar´".
Enquanto houver turismo e andantes. Enquanto houver respeito ao resgate histórico de nossos antepassados, a cultura estará sendo servida ao sabor do turismo suave, Vivem em nós gramadenses, quem sabe quantas etnias...
Porque o sabor dos convívios e dos olhares, nos filós, nos saraus ou nas folgas, devem estar tão entrelaçados, que eu vibro em pensar que sou todos eles e mais um pouco. Sou descendente de todos, e, com certeza, amo e agradeço a todos por tudo o que sou.
A todos, por tudo o que somos.
( com informações cultura ) |  | |
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