Quando se tem gatos em casa, aprende-se que é fundamental pisar leve, com passos lentos, porque a possibilidade de haver algum bem perto é imensa.
Quando se tem gatos em casa, e a cama ainda está desarrumada, aprende-se que não é prudente pular sobre os aparentes montinhos de edredons e travesseiros.
Quando se tem gatos em casa, aprende-se que não importa para onde seu olhar se dirija. Entre você e o livro, ou a tela do computador, ou, ou, ou..., sempre haverá, de passagem ou demoradamente, um gato.
E porque não queremos pisá-los, amassá-los, ou chutá-los, ou agredi-los de qualquer outra forma, nossos próprios gestos vão se tornando mais suaves, delicados, pacientes...
Uma velha piada sobre a personalidade dos gatos e seu estilo bon vivant conta que eles nos escolhem, especificamente, porque sabem que vamos tratá-los bem. Comida, caixinha de areia, caminhas, muito carinho... Tudo isso nos é muito fácil; não representa esforço algum, e ainda nos aquece, cheio de amor, o peito.
Lembro de certa vez que, desavisada, toquei com o pé a perninha de um dos meus gatos, enquanto trabalhava. Pelo grito/miado que se seguiu, parecia que eu estava trucidando o bicho... Um tempo depois, quando consegui me aproximar dele novamente (são dramáticos e geniosos, sim), o que se viu foi um gato meigo, que virou a barriguinha para cima, pedindo carinho (e inteiro, sem nenhuma lesão).
Ele havia esquecido a minha ‘agressão’ e às vezes confesso que gostaria de ter a (péssima) memória de gato, em relação às violências que sofro (tadinha) e pratico (maldosa), sejam elas mais ou menos conscientes, claro.
Seria bem mais fácil, depois de gritar e espernear, deitar, vulnerável, e pedir carinho, ronronando. |  | |