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| Texto publicado em 29/06/2011* - 12:53, quarta-feira. | por Prof. Julio Pogorzelski | | *Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 10 meses! |  Legado de Amor Viajando a um passado que não conheci, imaginei o primeiro encontro dele com cada uma delas, os livros lidos e as histórias contadas, as brincadeiras, os aconselhamentos, o colo, o amor dito, enfim. Enxerguei ali uma história de amor, cuidado e zelo fraterno que podia estar por de trás de cada lágrima, um legado só permitido aos grandes homens.
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 A história de vida de cada um vai se constituindo na exata medida das suas experiências. Cada uma dessas experiências vai acrescentando uma variedade de sentimentos nos que nos cercam, residindo aí um dos principais motivos para que sejamos zelosos no trato com nossos semelhantes. Quando esses sentimentos assumem uma forma positiva, as despedidas nos remetem a um sentimento de perda, que pode ser supostamente provisória ou definitiva, e a mais dolorosa delas é aquela que irremediavelmente não permite o reencontro.
Na última semana, enquanto me detinha em divagações sobre o notável artigo de uma senhora intitulado Idosos: uma geração em conflito, ao mesmo tempo elaborava reflexões sobre os fatores que desencadearam o crescente aumento do uso abusivo drogas farmacológicas, compostos sintéticos criados para aplacar as angústias humanas. De acordo com a ONU esse vício já supera mundialmente o uso de drogas ilícitas. Desnecessário se aprofundar em pesquisas para saber que a acentuada dependência em anfetamínicos, substâncias estimulantes do sistema nervoso central, tem como principal fator o desencontro entre a perspectiva de vida do usuário e o que a sociedade vem lhe oferecendo, sobretudo quanto aos valores que pratica. Ferida a esperança, um dia ela sucumbe e as drogas surgem para amenizar o descompasso existencial.
Família, Escola e Igreja, até pouco tempo eram as mais sólidas instituições das quais emergiam valores exemplares, porém as erráticas escolhas de alguns de seus agentes, conjugadas com algumas outras do Poder Público, contribuíram para um novo contexto: o de desconfiança ou descrença nessas instituições e nos valores que propagam. O descrédito nos valores tradicionais e o vazio das alternativas levaram os jovens a encontrar nas drogas e no desrespeito aos limites socialmente impostos a sua fonte de prazer. Outros, não tão jovens, a se apegarem à enganosa suficiência do nome familiar como fato único capaz de lhes assegurar todo o crédito de uma boa reputação sem que precisassem fazer qualquer esforço para a construção de um mundo melhor. Dentre esses, há ainda os que na vaidade do próprio valor, adotam postura discriminatória, referindo-se, sem cerimônia e vergonha, ao verbete pedigree para denominar o seu destaque. Outros, buscam satisfação com o consumismo desenfreado ou exibitório, vitimado pelo valor da seiva materialista que corre em suas veias. Há ainda os que alertam para esse perigo, como a senhora octogenária autora do artigo, quando menciona: "Nossos valores foram varridos pelos tsunamis. As chuvas arrancaram nossas raízes. O temporal está lá fora e aqui dentro. Assim como ela, há também os que se defendem desse colapso alimentando esperanças, sobretudo através do amor, valor cujo descrédito é evidente. Mas a sua força é implacável e aonde ele está não passa desapercebido."
Quando me encontrava reflexivo sobre todo esse contexto social, que depõe contra uma sociedade saudável sob ponto de vista relacional, precisei interromper essa tarefa para ir a um funeral. Não conhecia aquele a quem prestavam a última homenagem em presença. Estava ali somente com a intenção de dizer a alguns familiares, os quais tenho como amigos, que me solidarizava com a dor daquele momento. No entanto tal experiência ultrapassou para mim o mero rito sepulcral.
Chamou-me a atenção inicialmente o comportamento das netas. As jovens redor do ataúde repetidas vezes alisavam o rosto sereno daquele senhor. O choro dessas meninas eram renitentes, demonstrando efusivamente a dor pela perda sofrida. Pensei em quantos avós desejam ser tão bem quistos pelos netos, e passei para uma outra dimensão: a histórica, pois fortes eram os indicativos de que aquele homem devia ter construído uma significativa história com suas netas.
Viajando a um passado que não conheci, imaginei o primeiro encontro dele com cada uma delas, os livros lidos e as histórias contadas, as brincadeiras, os aconselhamentos, o colo, o amor dito, enfim. Enxerguei ali uma história de amor, cuidado e zelo fraterno que podia estar por de trás de cada lágrima, um legado só permitido aos grandes homens.
Noutro quadro, quando a esposa e o filho se abraçaram essa emocionante sensação ultrapassou todos os meus limites. Foi quando consegui também naturalmente remeter-me à tenra infância daquele homem, imaginando a voz de seu pai pedindo-lhe cuidado para não cair ao correr e, se assim houvesse sido, dizendo-lhe que a dor logo partiria. Não sei o que disseram um ao outro, porém seja o que for, representava o sentimento de que um protagonista muito especial de amor em suas histórias não estaria diante deles, um dia sequer, para sorrir, brincar, e talvez até rabujentar.
A minha história de vida, naquele dia, recebeu novo contorno, resultado das ações de um homem que eu conheci há poucos dias somente de ouvir falar sobre sua enfermidade. Mesmo sem que nos conhecêssemos, deixou, para mim, um legado de incremento à esperança do amor no seio familiar. Para os seus familiares, um legado eterno de amor. Para todos, um testemunho da força e do império do amor. Isto, é bom que se acentue, é um feito reservado somente os grandes homens. |  | |
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