O mau humor atrapalha a vida das pessoas. Em alguns casos, a cara amarrada prejudica o indivíduo no seu relacionamento com a família, com os amigos, os colegas de trabalho. E há ainda os episódios mais graves, quando a falta de um sorriso, de um pouquinho de paciência e de jogo de cintura se transformam em implicâncias permanentes, em preocupações demasiadas com pequenos problemas, tornando insustentável uma vida a dois.
Se a máxima de que uma situação ruim sempre pode piorar for levada em consideração, o mau humor está aí para contribuir com ela. Se a vida, já tão difícil e tão cheia de obstáculos, for ainda levada por um casmurro, bem, as coisas, então, podem mesmo piorar. É o caso de alguns técnicos de futebol.
O Muricy Ramalho, por exemplo. Muricy é um mau-humorado confesso. Mas ele já passou da linha do ranzinza para entrar na sala do folclore. Ou seja, a falta de um sorriso no rosto virou marca registrada do Muricy. E isso é sério. É uma questão de imagem! O mesmo parece acontecer com Celso Roth e Adilson Batista. O problema é que a linha entre o mau-homor folclórico e a grosseria é tênue. É preciso estar atento à diferença entre ser sério e ser grosseiro. Esta é uma arte para poucos.
Vejam o Dunga. Acuado há anos pela mídia nacional por montar uma Seleção Brasileira com poucos jogadores talentosos, por ter deixado de lado craques como Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ganso de fora da lista, por usar roupas estranhas à beira do gramado, por ser disciplinador ao extremo e também por ser antipático, Dunga tem dificuldade de se relacionar com a imprensa.
Dunga pode ser o que bem entender. Pode até não se relacionar com a mídia, se não quiser. As pessoas têm o direito de, por exemplo, não dar entrevistas. O problema é que Dunga não é, neste momento, uma pessoa qualquer. Dunga é, para o bem ou para o mal, o treinador da Seleção Brasileira. Ninguém o obrigou a assumir este cargo. Ele está lá porque quer.
Relacionar-se com a imprensa, então, não é uma escolha sua. É uma obrigação imposta pela força do cargo e também uma tarefa imposta pela Fifa. Ele precisa dar entrevistas e ponto final. O problema é que Dunga não se contém nas entrevistas que ele é obrigado a conceder. Mau-humorado em qualquer situação – na vitória, no empate ou na derrota que ainda nem veio na África –, o técnico da Seleção está sempre prestes a explodir, sempre disposto a retrucar uma pergunta com ironia ou deboche.
Dunga ama a Seleção Brasileira e a defende com unhas e dentes. Ótimo. Mas se é tão bom estar na Seleção, porque tanto mau-humor? Se o melhor lugar para estar é na Seleção, porque tanta infelicidade? Dunga está confiando que conquistará a Copa do Mundo e, por isso, sente-se acima de todas as coisas que o cercam. Se isso ocorrer, Dunga se vingará da imprensa e dos críticos com a taça de campeão. E mesmo assim, continuará não sendo uma unanimidade nacional. Mas se o Brasil perder, bem, aí Dunga terá que agüentar a mão pesada da mídia e dos críticos. E pensar que sorrir, ser gentil, compreensivo, respeitoso e bem-humorado custa tão pouco... |  | |